Ser pais é uma tarefa que requer muita disponibilidade e comprometimento. É um
presente para a vida toda. E se você se descobrir pai ou mãe de um filho (a) homoafetivo, o
negócio é ainda mais complexo.
Todos os pais precisam de apoio, mas os pais de homossexuais precisam ainda mais.
Homens nascidos de uma cultura latina machista como a nossa, criados para perpetuar os
mesmos comportamentos com seus filhos homens e passar por todos aqueles ritos de
passagem que fazem o menino “virar homem”. E quando as coisas não ocorrem como
planejávamos? O que fazer? O que fazer quando a menina se recusa a vestir aquele lindo
conjuntinho rosa? Ou ignora a boneca mais cara da loja e elege o carrinho como o seu favorito
brinquedo, além de bola de futebol e vídeo game, geralmente associados a padrões de
masculinidade na nossa sociedade?
Se você é um pai acostumado a enxergar a sua prole como uma continuidade sua, vai
ter grandes problemas! As variantes do comportamento sexual humano não se coadunam com
o que a sociedade estabelece como parâmetro normativo, a heterossexualidade, por exemplo.
Dessa forma, o que se afasta desse parâmetro, torna-se, no meio social, algo visto como
doença, perversão, desvio. E deve ser tratado, combatido, curado.
Os pais de jovens considerados desviantes socialmente receberão um choque ao
confrontar-se com a ideia de que seus afetos possam estar com algum tipo de doença grave.
Esses pais receberão todo tipo de conselhos e opiniões de pessoas que “só querem ajudar”.
Em nome dessa ajuda, em nome da confusão psíquica que se encontram, em meio ao caos que
se estabelece com infinitas opiniões de especialistas no assunto, esses pais travarão uma
batalha interna que, como temos visto, nem sempre acaba em final feliz. Filhos expulsos do
lar, ou assassinados por pais desesperados diante da falta de controle sobre sua prole, ou
ainda famílias que vivem enclausuradas por motivos de vergonha ou pactos silenciosos de não
expressão da própria singularidade de seus filhos. A falta de informação alimenta o
preconceito e essas famílias vivem dramas muito reais, gerando culpa, vergonha, isolamento,
trazendo angústia e sofrimento aos seus membros. O que deveria ser amor vira o caos.
Sabe-se que pais de homossexuais vivem um drama, muitas vezes, silencioso. E isso
não se dá apenas pela orientação sexual de seus filhos. A própria configuração do que
entendemos como família vem sofrendo modificações e ainda não se esgotou. Padrões
conservadores e muitos tabus coexistem numa sociedade que grita por liberdades e isso
também se expressa nas famílias contemporâneas. Jovens adolescentes estão na fase de
questionamentos e sempre testarão os mais velhos, entrando em desacordo, reforçando a
barreira da incomunicabilidade, muito comum nessa fase. E é nesse momento crítico, onde os
pais podem aproveitar e se aproximar mais de seus filhos, demonstrando compaixão, amor e
interesse pela vida de seus filhos. Eles precisam disso; eles, os jovens, pedem isso. Os pais mais
amorosos não poderão perder a oportunidade de reforçar seus vínculos emocionais nesse
momento, destruindo barreiras que impedem seus filhos de se abrirem com eles e confiar que,
nos seus progenitores, há braços abertos cheios de afeto esperando por eles. Ao contrário
disso, o autoritarismo dos pais pode ter consequências nefastas na psique dos filhos que,
muitas vezes, também não se aceitam, acham que nasceram errado, escondem-se sob
diversos disfarces, ou até se matam no desespero de não passar pela desaprovação dos pais ao

revelar-se ser quem são: apenas homens atraídos por outros homens, mulheres por mulheres
ou tudo isso junto.
Muitos pais se assustam e com razão, diante do medo de que “algo ruim” aconteça
com seus filhos, por exemplo, a homofobia, que mata muitos jovens nesse nosso Brasil. As
implicações são enormes diante da escolha de ser apenas quem se é. Mas isso também serve
para qualquer escolhas que nós, humanos, fazemos. A maioria das nossas escolhas carregam
ônus e bônus, por que seria diferente em se tratando de sexualidade? Nossa sociedade é
heterocêntrica, tudo que desvia desse padrão é combatido. Embora, diversos estudos no
campo da Antropologia têm demonstrado que a homossexualidade existiu em diversas
culturas, sendo a mesma considerada algo comum em tempos remotos. Saiu da lista de
doenças da Organização Mundial da Saúde em 1995 e hoje é entendida como uma orientação
sexual diferente da maioria.
Saiba pai ou mãe que, muitas vezes, o seu filho, no recanto do seu quarto, chora de
ódio de si mesmo e se odeia. Se mutila de diversas maneiras para expressar a sua dor que é
inimaginável para alguém que nunca passou por situação semelhante. Seu processo de
descoberta da sua sexualidade é muito mais complexo do que a de um jovem heterossexual. E
ele quer apenas que seu pai ou sua mãe digam que o amam e que ele não é um erro do
universo.
Sempre aconselhamos os pais a buscarem informações sobre a homossexualidade, a
participar de grupos de apoio, a ampliar sua consciência a respeito do tema para evitar que a
própria família se torne o pesadelo homofóbico do jovem que já tem a rejeição de si mesmo
como premissa.
Se você é um pai ou mãe de um jovem homoafetivo, saiba que não está sozinho nesta
luta. Se for demais para você, procure ajuda especializada para aprender a lidar com suas
emoções diante de circunstâncias em que você não detém o controle. Não se desespere! As
redes sociais de apoio são muito importantes e os pais são o maior apoio que um filho, seja
homoafetivo ou não, pode querer! Você vai deixar de amar o seu filho porque ele apresenta
uma orientação sexual com a qual você não concorda? O que muda no seu filho? O que muda
no seu amor?
Acredito que essas questões são muito pertinentes para a reflexão dos pais de
homoafetivos. Como psicóloga, tenho a obrigação de ajudar as pessoas que me procuram.
Conscientizá-las a respeito dos temas que as atravessam, aumenta as chances de eu atingir os
meus objetivos como profissional.

Psicóloga e Sexóloga Kátia Barbosa

Dialogando com os pais de homoafetivos
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Dialogando com os pais de homoafetivos
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Ser pais é uma tarefa que requer muita disponibilidade e comprometimento. É um presente para a vida toda. E se você se descobrir pai ou mãe de um filho (a) homoafetivo, o negócio é ainda mais complexo.
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